A NOVA PRÊMIO NOBEL DA PAZ, MARIA CORINA MACHADO
Na Modernidade, prolongando uma rica tradição medieval de mulheres guerreiras, quem de forma mais desassombrada enfrentou a bota do poder absoluto foi a mulher. Dois exemplos eloquentes para fundamentar a minha afirmação: Madame de Staël (1766-1817), na França napoleônica e María Corina Machado (nascida em 1967 e hoje com 58 anos), nessa atualidade trágica da ditadura venezolana, que se prolonga, graças ao Foro de São Paulo, como um garrote vil, sobre a sociedade latino-americana. Porque foram essas duas mulheres, Madame de Staël e María Corina as que, nos seus respectivos séculos e países, tiveram a coragem inaudita de, à frente dos cidadãos, denunciarem a violência das ditaduras erguidas sobre a mortífera herança do messianismo político.
Maria Corina Machado é engenheira industrial, professora universitária, mãe de três filhos, tendo sido a deputada mais votada à Assembléia Nacional da Venezuela, em 2011. No entanto, teve o seu mandato cassado, em 2014, pela Mesa Diretora da Assembleia Nacional comandada por Diosdado Cabello (1963), amigo do falecido Hugo Chávez (1954-2013) e apoiador incondicional do atual ditador Nicolás Maduro Moros (1962-), que ocupou o cargo de presidente interino quando da doença e morte, em 2013, de Hugo Chávez, e nunca mais saiu do trono. Maduro tem governado ao longo de todos estes anos na qualidade de presidente absolutista do seu país e o seu intuito sempre foi o de materializar o “socialismo bolivariano” que Chávez denominava de “socialismo do século XXI”, a ser estendido ao resto da América Latina. O mandato parlamentar de Maria Corina foi cassado, o que não a impediu de continuar lutando pela democracia no seu país. Sofreu vários atentados perpetrados pelos opositores chavistas, dos quais felizmente saiu ilesa, entrando em várias oportunidades na clandestinidade, quando a perseguição do governo se fazia mais acirrada.
Em 2006, a National Review aclamou Maria Corina como “a melhor representante da humanidade feminina, nos difíceis tempos que muitas mulheres enfrentam ao redor do Mundo, numa lista de mulheres que o Mundo deveria conhecer para comemorar o dia internacional da Mulher”. Quando María Corina se elegeu pela primeira vez, em 2010, para a Assembléia Nacional do seu país, frisou que o então Presidente Chávez “cometeu um grande erro, ao transformar a eleição num plebiscito sobre si mesmo. Este – frisava Corina – é um sinal claro de que os venezuelanos não querem um governo autoritário, um governo militarizado, um governo centralizado e um governo que quer transformar a Venezuela numa Cuba. A nova fase começa hoje e demos um grande passo para o dia em que os valores democráticos de liberdade, de justiça e de boa governança prevalecerão. Agora temos a legitimidade do voto cidadão. Nós somos representantes do povo. É muito claro. A Venezuela disse não ao modelo cubano”.
Em 21 de março de 2014, María Corina Machado compareceu, a pedido do Panamá, na reunião da Organização dos Estados Americanos (OEA) organizada nesse país em meio a protestos na Venezuela, para falar sobre a situação ali reinante. Depois de sua aparição na OEA, de acordo com o The Wall Street Journal, "parlamentares pró-Maduro, que dominam a Assembleia Nacional", alegaram que a sua aparição na OEA é proibida pela Constituição da Venezuela e decidiram cassar o seu mandato. A então deputada foi acusada pelo presidente da Casa, Diosdado Cabello (1963-), de ter atuado como representante suplente do Panamá na reunião da OEA. María Corina Respondeu a Cabello afirmando existir uma "ditadura na Assembleia Nacional” venezuelana e disse que a sua cassação foi ilegal,
María Corina estava entre os líderes das manifestações da oposição contra o presidente Nicolas Maduro, ocorridas em 2014. O congresso da Venezuela solicitou uma investigação criminal contra ela por crimes como traição à pátria, pelo seu envolvimento nos protestos antigoverno. A corajosa ativista respondeu às acusações feitas contra ela, dizendo: "Em uma ditadura, quanto mais fraco o regime é, maior a repressão". Depois de sua retirada do parlamento, em 21 de março de 2014, juntamente com seus simpatizantes ela iniciou uma marcha, em 1º de abril, em direção ao centro de Caracas, em protesto contra a sua expulsão da Assembléia Nacional. Ela tentou, então, retornar à cadeira parlamentar. Os manifestantes foram impedidos de sair pela Guarda Nacional, que os dispersou com gás lacrimogêneo.
Em Maio de 2014, um alto funcionário do governo venezuelano, Jorge Rodriguez, apresentou alegações de um complô de políticos e funcionários da oposição, incluindo a própria Maria Corina, para derrubar o governo do presidente Maduro. Como provas alegadas pelo governo venezuelano foram apresentados e-mails atribuídos a ela, através do Google. A verdade é que os e-mails tinham sido falsificados pelo Serviço Bolivariano de Inteligência Nacional. Em junho desse ano, a procuradora-geral da Venezuela, Luisa Ortega Díaz, intimou Maria Corina e, em 11 de junho, foram emitidos mandados de prisão contra ela e alguns dos seus amigos. Os supostos e-mails apresentados pelo governo tinham "muitos indícios de manipulação" e ficou patente que "os funcionários venezuelanos usaram e-mails falsos para acusar adversários do governo de conspirar para matar o presidente Nicolas Maduro".
Em novembro de 2014, funcionários do governo anunciaram que María Corina Machado seria formalmente acusada em 3 de dezembro. Ela e outros afirmaram que as acusações eram falsas e foram criadas pelo governo venezuelano para desviar a atenção dos problemas das pesquisas econômicas, que revelavam a queda da aprovação a Maduro, numa proporção recorde de 30%. Em 1º de fevereiro de 2019, Maria Corina anunciou sua intenção de concorrer à presidência caso Juan Guaidó convocasse eleições, devido à crise governamental. Ela foi reconhecida como candidata da oposição para a seguinte eleição presidencial. Numa entrevista, María Corina deixou claro que não estava interessada nas primárias da oposição, afirmando: "Meu objetivo é remover Maduro e derrotar o regime com toda a força disponível". Ela argumentou que, nas eleições, existem apenas duas opções: "Ganhamos com uma grande maioria ou Maduro rouba a eleição". Félix Seijas, chefe de pesquisas da agência Delphos, explicou que "a oposição, tal como era, já não existia, e isso abria as portas para conquistar apoio além da sua base radical”.
Em 14 de agosto de 2022, María Corina confirmou a sua participação nas primárias presidenciais da Plataforma Unitária de 2023. Manifestou-se contrária à assistência técnica do Conselho Nacional Eleitoral na eleição, considerando que o CNE faz parte de um "sistema criminoso". Defendeu o abandono das urnas eletrônicas e o retorno à votação manual. Em 15 de março de 2023, iniciou oficialmente as suas viagens de campanha, começando pelo Estado de Mérida. Manteve, nos palanques, as suas críticas à liderança tradicional da oposição, aos partidos Acción Democrática, Primero Justicia, A New Era e Voluntad Popular. Acenou com a decisão de negociar uma saída do chavismo para garantir uma transição pacífica. Em 30 de junho de 2023, foi desqualificada, no entanto, por quinze anos, pela Controladoria Geral da Venezuela. A controladoria a vinculou a supostos crimes cometidos por Juan Guaidó, ex-candidato que tentou se firmar, através do Congresso, como sucessor na Presidência. No entanto, a acusação de participação de María Corina no governo interino era incoerente, pois ela não foi membro da Assembleia Nacional de oposição em 2015 (por ter sido desqualificada pela Controladoria), além de nunca ter sido nomeada para qualquer cargo no mandato interino de Guaidó. Instâncias internacionais como a ONU, a OEA e a União Europeia, bem como a Colômbia, Paraguai, Uruguai, Equador, Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha, Chile, Canadá e França, foram contra a desqualificação de María Corina. O Parlamento da União Europeia julgou a proibição como "arbitrária e politicamente fabricada", e a Associated Press considerou que barrar políticos opositores era uma tática frequente do governo chavista.
Em 26 de outubro de 2023, após vencer as primárias, a Comissão Nacional de Primárias proclamou Maria Corina Machado como a candidata presidencial unitária da oposição. Mas a desqualificação de 15 anos de María Corina foi confirmada pelo Supremo Tribunal de Justiça da Venezuela, em janeiro de 2024. O tribunal afirmou ela “estava envolvida na trama de corrupção orquestrada pelo usurpador Juan Guaidó", fato que teria levado a um "bloqueio criminoso da República Bolivariana da Venezuela, bem como à desapropriação descarada das empresas e riquezas do povo venezuelano no exterior, com a cumplicidade de governos corruptos". Em consequência, a candidata nomeou Corina Yoris como sua suplente. Esta, por sua vez, não conseguiu se registrar como candidata e nomeou o político e diplomata Edmundo González Urrutia (1949-) como seu substituto temporário.
No que tange às eleições de 2024, embora María Corina não tivesse se apresentado como candidata presidencial, no entanto permaneceu como líder da oposição ao chavismo durante o processo eleitoral. O apoio majoritário que o candidato Edmundo González Urrutia recebeu em diversas pesquisas devia-se ao impulso dado a ele pela própria María Corina. Acerca do desempenho que ela poderia ter no governo de González Urrutia, The Telegraph comentou: "Caso a oposição vença, espera-se amplamente que a Sra. María Corina Machado seja a líder de fato de um governo formalmente liderado pelo Sr. González". O jornal também comparou o massivo movimento popular em torno a María Corina Machado com a ascensão de Hugo Chávez à presidência em 1998, justamente pelo "fervor" gerado entre os cidadãos, num contexto de crise política e decadência do sistema.
Em 4 de julho, Edmundo González e María Corina Machado iniciaram oficialmente a campanha eleitoral, juntamente com outros líderes da oposição. O evento inaugural foi planejado como uma caravana desde o shopping Chacaíto até o hotel El Marqués e transformou-se numa alegre marcha com a participação de dezenas de milhares de pessoas. The New York Times, ao se referir a María Corina, descreveu-a como "uma ex-legisladora enérgica, cuja mensagem central é a promessa de trazer os venezuelanos de volta para casa, restaurando a democracia e reativando a economia”.
Após os anúncios do governo venezuelano de resultados eleitorais falsificados, desencadeou-se uma crise política nacional e internacional. Em 1º de agosto de 2024, María Corina publicou uma carta no The Wall Street Journal, afirmando ter se escondido "temendo por minha vida, minha liberdade e a de meus compatriotas diante da ditadura de Nicolás Maduro"; na carta, apresentou as evidências, segundo ela, extraídas da contagem dos votos que sustentavam a vitória da PUD (Plataforma Unitária Democrática, da oposição), e afirmou que Maduro expulsara testemunhas das urnas, enquanto os eleitores "protegeram os comprovantes de voto com suas vidas durante toda a noite" das eleições. Em 9 de janeiro de 2025, Maria Corina sofreu uma tentativa de prisão por forças do regime oficial. A prisão ocorreu após um comício em Chacao, Caracas, onde María Corina reapareceu publicamente após três meses de reclusão. Segundo relatos, tropas do governo "interceptaram violentamente" seu veículo e atiraram contra as motocicletas que a acompanhavam.
Em síntese, María Corina Machado se firmou como autêntica liderança civil da oposição, sempre presente no seio da sociedade. Estimulou e garantiu a coalizão oposicionista, conduzindo os seus eleitores a reagir com firmeza contra o autoritarismo vigente. As suas imagens de jovem mulher que guia as multidões do alto do palanque e que se apresenta abraçada à bandeira do seu país, tornaram-se conhecidas pelo mundo afora. Utilizou, sempre, métodos pacíficos para conseguir a mudança da sociedade venezuelana, derrotando nas urnas os corruptos partidários da ditadura bolivariana. A sua persistente e heróica disposição em prol da democracia venezuelana, tornaram-na merecedora do Prêmio Nobel da Paz, recebido recentemente.
Vale a pena repetir aqui as palavras do Comitê do Prêmio Nobel, quando da sua premiação: “Machado tem sido uma figura-chave e unificadora em uma oposição política que antes estava profundamente dividida, uma oposição que encontrou um ponto em comum na demanda por eleições livres e governo representativo. É precisamente isso que está no cerne da democracia: nosso desejo compartilhado de defender os princípios do governo popular, mesmo quando discordamos. Em um momento em que a democracia está ameaçada, é mais importante do que nunca defender esse ponto em comum”.
Registremos que a ancestral de Maria Corina Machado, na França revolucionária do século XVIII, Madame de Staël, também lutou corajosamente para criticar o terror absurdo desatado pela monarquia absolutista contra a população, na Revolução de 14 de Julho de 1789. Intelectual refinada, a jovem escritora Madame de Staël colocou o seu Salão, bem como a sua criatividade literária, a serviço da luta em prol da liberdade ameaçada pelo absolutismo e pelo terror. Protestou corajosamente contra a violenta perseguição de que foi vítima a rainha Maria Antonieta (1755-1793), a qual, embora responsável pelos gastos excessivos da Coroa, foi presa sem fórmula de juízo na Prisão medieval do Templo, tendo sido torturada física e psicologicamente durante meses, antes de ser conduzida ao cadafalso. Madame de Staël, mãe de quatro filhos, solidarizou-se com as dores da Soberana (mãe também de quatro filhos), embora não simpatizasse com a corrupção do governo nem com os gastos desenfreados da Coroa. Defendeu Maria Antonieta como mãe e como mulher e se revoltou com a forma vil em que o populacho a conduziu à guilhotina. Acusada falsamente de traição à Pátria e do crime de incesto com o seu filho de 8 anos, pelo deputado e jornalista radical Hébert (1757-1794), Maria Antonieta recusou-se a responder no tribunal revolucionário, pronunciando as seguintes palavras: “Se não respondo, é porque a própria natureza se recusa a responder a tal acusação feita contra uma mãe! Faço um apelo a todas as mães presentes”.
Madame de Staël ficou muito impressionada com a violência do processo revolucionário e a duras penas conseguiu escrever um panfleto intitulado: Reflexões de uma mulher acerca do processo contra a rainha, divulgado em agosto de 1793 na Inglaterra e na Suíça. A defesa esboçada por Madame de Staël não pretendia ser uma peça jurídica. A jovem escritora apelava para a sua condição de mulher, simplesmente. “O meu nome – frisava - não sendo útil, deve permanecer desconhecido, mas, para destacar a imparcialidade deste escrito, devo dizer que, entre as mulheres chamadas para ver a rainha, sou uma daquelas que menos tiveram com essa princesa relações pessoais. Estas reflexões merecem, por isso, o crédito de todos os corações sensíveis pois não foram inspiradas pelos motivos (utilitaristas) que a todos animam”. Mas, se Madame de Staël se solidarizava com uma mulher injustiçada, mesmo que ela fosse a Rainha da França, soltava no entanto as mais duras palavras para censurar a índole absolutista e autocrática do homem mais poderoso da França, Napoleão Bonaparte (1769-1821), que destruiu a liberdade no seu país para se converter em imperador absoluto.
Como testemunho da sua convicção democrática e da repulsa que sentia em face de um governante inescrupuloso, Madame de Staël escreveu: “Napoleão possui a arte de tornar a situação dos países que se consideram a si próprios em paz de tal forma infeliz, que toda mudança lhes é agradável e que, uma vez forçados a dar homens e dinheiro à França, não sentem quase o inconveniente de serem reunidos ao redor dela. Eles se dão mal, no entanto, pois nada há pior do que perder o nome de nação e, como os males da Europa são causados por um só homem, é necessário lembrar com cuidado aquilo que pode renascer quando ele já não mais exista”.
Madame de Staël – como, aliás, também a corajosa María Corina Machado - era consciente do preço que os seus concidadãos tiveram de pagar ao despotismo. A propósito, contava a seguinte anedota: “Alguém me falou, certa vez: Eis tudo restabelecido como antes da Revolução. Sim, respondi-lhe, tudo exceto dois milhões de homens que morreram pela liberdade. Essas palavras impressionaram um general que as repetiu como se fossem dele. O Primeiro Cônsul me reconheceu nessa expressão e em algumas outras que foram repetidas pelo mesmo general, que conversava frequentemente comigo. Deixando escapar expressões as mais violentas, ele disse com a sua delicadeza ordinária para com as mulheres, que ele me faria cortar os cabelos e me trancaria num convento”.
A consequência das corajosas críticas ao absolutismo napoleônico fizeram-se sentir: Madame de Staël foi violentamente desterrada de Paris e da França, tendo passado dez anos, entre 1803 e 1813, vagando de um país para o outro, pelos confins da Europa até a Rússia e a Suécia, a fim de escapar das garras da polícia secreta do Imperador. Essas lembranças foram recolhidas no livro intitulado: Dez anos de Exílio, que Madame de Staël conseguiu ver publicado na Inglaterra em 1815, dois anos antes de falecer, em 1817.
Para finalizar, anotemos que Madame de Staël deu o nome de Corina à sua heroína no romance Corina ou a Itália, antecipando no tempo a saga heróica de Maria Corina Machado. A escritora suíça Simone Balayé, a mais importante biógrafa de Madame de Staël, resume assim o alcance da obra mencionada: “Um romance cosmopolita e europeu, que evoca a França, a Inglaterra e a Itália no amanhecer do romantismo, na diversidade dos seus costumes e das suas culturas. A história de uma mulher, a poetisa Corina, que inaugura o debate sobre a condição feminina, sobre o direito da mulher a viver e a ser independente e a existir como escritora. Corina é Madame de Staël mesma, ‘a mulher mais extraordinária que jamais viveu’ segundo Stendhal, ‘um ser aparte, um ser superior, tal como não se encontra outro num século’, segundo dizia Benjamin Constant. O próprio Napoleão, que enxergava em Madame de Staël uma perigosa mensageira da liberdade, declarou um dia: ‘Depois de tudo, é necessário reconhecer que é uma mulher de grande talento; ela permanecerá’ ”. Louvor às Corinas, as de ontem e à de hoje!