Conheci Ubiratan Jorge Iorio em 1989, na campanha de Fernando Collor de Mello (1949) para a Presidência da República. O jovem economista Ubiratan (1946), entrou a formar parte da equipe de apoio que conhecidos empresários cariocas tinham organizado para dar força a essa candidatura apresentada como uma opção nova, que abriria espaço para a renovação da política econômica, a qual deveria ser arejada em consonância com as necessidades de abertura, no contexto dos novos planos dos EUA de criar um grande mercado latino-americano.
Eu tinha me aproximado do grupo de intelectuais que apoiavam o programa do Collor, pela mão da saudosa amiga dona Leda Collor de Mello (1916-1995), mãe de Fernando Collor, que me tinha procurado anos antes – em 1987 – ao ensejo de breve biografia de Lindolfo Collor (1890-1942), pai da dona Leda, que escrevi como complemento aos meus estudos sobre a Segunda Geração Castilhista e que tinha sido publicada na Revista Convivium de São Paulo.
Nesse meu estudo que intitulei: “Lindolfo Collor e a Segunda Geração Castilhista”, destaquei que dois autores foram responsáveis pelos aspectos estratégicos do pensamento de Getúlio Vargas (1882-1954), quando da sua volta à vida pública nos anos 50. Esses dois autores eram Oliveira Vianna (1883-1951) e Lindolfo Collor. Do ângulo dos conceitos chaves para entender a proposta modernizadora de Getúlio, que consistia em superar o “insolidarismo clânico” que tinha afetado ao Brasil no decorrer da República Velha, destacava-se a obra clássica de Oliveira Vianna intitulada: Populações Meridionais do Brasil, publicada em 1920 e que Getúlio conhecia já desde os seus tempos de líder da bancada gaúcha no Congresso, como deputado federal pelo Rio Grande do Sul, nos anos vinte.
Do ponto de vista do pensamento estratégico, ou seja, daqueles empreendimentos que se destacavam como necessários para a construção de um projeto que colocasse o Brasil no contexto internacional como uma potência, destacou-se a figura do gaúcho Lindolfo Collor o qual, advogado, político e jornalista, tinha uma ideia clara do que seria essencial para o Brasil não depender de potências estrangeiras na sua caminhada segura no instável cenário internacional. Ora, Lindolfo, um dos líderes da ala liberal do Castilhismo no Rio Grande do Sul, foi o primeiro a ocupar a pasta do Trabalho no governo de Getúlio após a Revolução de 1930. Lindolfo considerava que, além da nova legislação trabalhista aberta à industrialização, seria necessário que o Brasil contasse, para se firmar no panorama internacional como potência emergente, com duas iniciativas até agora inexistentes: em primeiro lugar, uma Siderúrgica; em segundo lugar, uma empresa de Petróleo, para não depender no quesito energia de outras nações. Foi de Lindolfo a ideia de negociar com os Estados Unidos o apoio financeiro e tecnológico para a construção da Siderúrgica de Volta Redonda, como contrapartida pela entrada do Brasil na Guerra, ao lado dos americanos. A histórica negociação diplomática entre Roosevelt e Getúlio na cidade de Natal, hoje é lembrada corriqueiramente nos livros de história.
Mas voltemos à campanha de Fernando Collor. A candidatura do governador de Alagoas à Presidência da República ostentava um legítimo pano de fundo na figura do seu avô, o grande Lindolfo Collor, para discutir e apresentar uma sugestão de peso, no programa de governo, em prol de retomar a proposta das reformas necessárias, que levariam o nosso país a uma posição de destaque no cenário internacional. Não era apenas uma proposta do governador de Alagoas. Era algo mais. A candidatura de Fernando Collor era a retomada das ideias modernizadoras defendidas pelo seu ilustre antepassado Lindolfo Collor. Assim, ganhavam sentido não só as críticas ao fisiologismo que o jovem estadista endereçava à política “velha”, que dessangrava o país com um número exagerado de empregados públicos e ganhava novo sentido a proposta do jovem combativo que se apresentava como “caçador de marajás”. O dinâmico Fernando Collor ocuparia um espaço de debate nacional em que se tinha destacado a figura do seu avó Lindolfo. Fernando Collor daria continuidade à pregação pela modernidade das instituições republicanas.
O escritório de apoio empresarial à campanha de Collor ficava na rua Rodrigo Silva, 21, acho que no vigésimo andar, no centro do Rio. A equipe era chefiada pelo general Carlos de Meira Mattos, de quem eu era amigo. Participava da equipe o Coronel Cadaval, aposentado do Exército. O escritório pertencia a Sérgio Quintella, conhecido industrial carioca, da área de estaleiros navais. A equipe era integrada pelo general, que dirigia o grupo e que se responsabilizava, junto com Cadaval, pelos aspectos estratégicos da campanha com a participação de alguns jovens intelectuais, entre os quais sobressaía a professora Gladislene Teixeira, que tinha sido minha aluna no Curso de História da UniRio e que coordenava a parte editorial. Os estudos correspondentes às políticas econômicas correspondiam ao meu amigo Ubiratan Jorge e a crítica política era de minha alçada. Semanalmente escrevíamos várias “Tomadas de posição”, que eram distribuídas entre empresários e intelectuais ligados ao movimento Pro-Collor.
Ubiratan defendia o seu ponto de vista liberal inspirado na Escola Austríaca, propondo uma redução do tamanho do Estado, bem como reformas que diminuíssem o peso da burocracia estatal com os conhecidos entraves para os bolsos dos contribuintes, notadamente os empresários. Ubiratan assessorava, na área de políticas públicas para a economia, o deputado Guilherme Afif Domingos (do PL de SP) – que participou do Congresso Constituinte. Eu próprio tinha participado dos trabalhos da Constituinte, junto com o meu amigo e orientador do mestrado e doutorado, o saudoso professor e amigo Antônio Paim (1927-2021). Assessoramos o Senador José Richa (do PSDB do Paraná) na Comissão de Constituição e Justiça do Congresso Constituinte. Ora, Richa defendia o parlamentarismo com a criação do voto distrital. A proposta dessa modalidade de voto nos parecia de extraordinário valor para dar sustentação à representação política, com a criação dos distritos eleitorais, que teria ensejado uma abertura enorme ao aperfeiçoamento do governo representativo, garantindo, de outro lado, a estabilidade política e a luta contra o patrimonialismo.
Ubiratan Iorio, com os seus estudos sobre o Liberalismo Austríaco, dava continuidade ao Liberalismo telúrico ibérico, que defendia a participação do Parlamento na negociação dos impostos perante a Coroa, lembrando a Magna Carta inglesa de 1215. Lembremos os famosos “Foros Aragoneses”, que instauravam a praxe da eleição do Rei pelos barões proprietários das terras, de acordo à tradição visigótica que foi retomada pelos Romanos. No ato da sagração do Monarca, segundo os mencionados Foros, o justiça-mor do Reino formalizava a coroação com o seguinte dizer: “Nós, que valemos tanto quanto vós e que juntos valemos mais do que vos, vos reconhecemos como o nosso Rei e Senhor, para que protejais as nossas vidas, liberdades, honra e bens, ou se não, não!” Ora, essa é a remota origem histórica da prática da representação, de acordo ao Liberalismo Ibérico, que seria defendido por pensadores importantes da Tradição Hispânica e Portuguesa, como Juan de Mariana, Francisco Suárez, Martínez Marina, Alexandre Herculano e outros. Para Herculano, por exemplo, não havia duda da presença dessa tradição na história de Portugal, a partir do reinado de Affonso Henriques. O querido amigo Ubiratan Jorge Iorio, na sua magnífica obra Dos protoaustríacos a Menger, uma breve história das origens da Escola Austríaca de Economia [São Paulo: Instituto Mises, Editor Alex Catharino, 2017, 572 pp.], recolhe os elementos fundamentais dessa importante saga histórica.
A derrota da proposta do voto distrital formulada pelo Senador paranaense José Richa, no seio das Comissão de Constituição e Justiça presidida por ele na Constituinte, foi um duro golpe para a renovação das nossas instituições de governo representativo. A adoção do voto proporcional defendido pelo senador Mario Covas, a fim de manter inalterado o controle dos sindicatos manipulados pelo Executivo no Congresso, foi uma derrota da democracia brasileira. Até hoje o nosso Congresso sente o peso desse equívoco histórico. Volta e meia, o Presidente da mais importante Casa Legislativa, no Senado, faz ouvidos moucos às demandas da sociedade em prol de maior transparência, no que tange às expectativas dos eleitores.